King Funghi Cogumelos

Cogumelos Psicoativos

Por Equipe editorial King Funghi · Publicado em 11 de setembro de 2026 · Última revisão em 28 de setembro de 2026

Psilocibina: o que a ciência sabe hoje

A psilocibina é a substância psicoativa de cogumelos do gênero Psilocybe. No organismo, ela vira psilocina, que age principalmente no receptor de serotonina 5-HT2A. Depois de décadas de pesquisa, ela vive o momento mais promissor da sua história: dois ensaios de fase 3 para depressão resistente tiveram resultado positivo, a FDA (agência americana de medicamentos) colocou o pedido de registro em revisão acelerada e a aprovação nos EUA pode sair já em 2027.

Promissor não é o mesmo que comprovado para tudo. A evidência é forte em depressão, consistente em ansiedade ligada a doenças graves e ainda inicial para outras condições. Os estudos usam psilocibina padronizada, com seleção rigorosa e acompanhamento profissional, e os efeitos adversos existem. No Brasil, a substância segue controlada pela Anvisa.

Importante: a King Funghi não cultiva, vende, comercializa nem facilita o acesso a cogumelos psicoativos ou psilocibina em nenhuma forma. Psilocibina e psilocina são substâncias controladas no Brasil (Lista F2 da Portaria SVS/MS nº 344/1998). Este conteúdo é informativo, não oferece diagnóstico ou tratamento e não orienta o uso de substâncias controladas. Resultados de pesquisa com psilocibina farmacêutica não valem para cogumelos in natura: a concentração da substância varia muito de cogumelo para cogumelo, e confundir espécies silvestres pode causar intoxicação grave.

Principais cogumelos psicoativos

Mais de 200 espécies de fungos produzem psilocibina, a maioria do gênero Psilocybe. Estas são as mais citadas na literatura científica e na história. As descrições são botânicas e informativas; a potência relativa segue a classificação do micologista Paul Stamets (1996) e varia muito de um exemplar para outro. Esta seção não serve para identificar cogumelos na natureza.

Psilocybe cubensis com chapéus dourados em meio ao capim
Psilocybe cubensis de coloração clara em cultivo de laboratório

Psilocybe cubensis

Potência: Moderada

Nome popular: cogumelo do gado, "cubensis"

Onde ocorre: Regiões tropicais e subtropicais do mundo todo, inclusive o Brasil, sobre esterco de gado em pastos.

É a espécie psicoativa mais conhecida e a mais usada em pesquisa. Foi descrita em 1906 a partir de exemplares coletados em Cuba, daí o nome. Tem chapéu dourado a castanho, anel no pé e mancha azulada quando tocada, reação típica da oxidação da psilocina. Os 18 kg importados para o medicamento experimental brasileiro BTP23+ são desta espécie.

Psilocybe semilanceata com chapéu cônico pontudo
Psilocybe semilanceata crescendo no gramado

Psilocybe semilanceata

Potência: Alta

Nome popular: "liberty cap", barrete-da-liberdade

Onde ocorre: Campos e pastagens úmidas de clima temperado, principalmente na Europa e na América do Norte.

Pequeno e fino, tem chapéu cônico com uma ponta no topo, lembrando o barrete frígio da Revolução Francesa, origem do nome popular. Cresce em gramados, mas não diretamente sobre o esterco. É a espécie psicoativa silvestre mais comum da Europa e uma das mais potentes para o seu tamanho.

Psilocybe azurescens com chapéus alaranjados sobre palha
Psilocybe azurescens com chapéu castanho em close

Psilocybe azurescens

Potência: Muito alta

Nome popular: "azzies", "flying saucer"

Onde ocorre: Faixa litorânea do noroeste dos EUA (Oregon e Washington), em dunas e restos de madeira.

Descrita oficialmente em 1996 pelo micologista Paul Stamets, que a aponta como uma das espécies com maior teor de psilocibina já medido. Tem chapéu caramelo, que escurece com a idade, e coloração azul intensa ao manuseio, de onde vem o nome. Cresce sobre lascas de madeira e capim de dunas.

Psilocybe cyanescens com chapéus ondulados cor de caramelo
Psilocybe cyanescens em grupo, com as lamelas à mostra

Psilocybe cyanescens

Potência: Alta

Nome popular: "wavy cap", chapéu ondulado

Onde ocorre: Noroeste dos EUA, Europa Ocidental, Nova Zelândia e outras regiões temperadas, em lascas de madeira de parques e jardins.

O chapéu de borda ondulada, caramelo quando úmido, é a marca registrada. Espalhou-se pelo mundo acompanhando o uso de cobertura de madeira no paisagismo urbano. Atenção: cresce no mesmo ambiente que a Galerina marginata, cogumelo mortal (veja o aviso abaixo).

Psilocybe mexicana com chapéus castanhos
Esclerócio (trufa) de Psilocybe mexicana

Psilocybe mexicana

Potência: Baixa a moderada

Nome popular: "teonanácatl", a "carne dos deuses"

Onde ocorre: Campos e bordas de mata de altitude no México e na América Central.

É a espécie histórica da psilocibina: usada em cerimônias por povos indígenas mesoamericanos, como os mazatecas de Oaxaca, foi dela que o químico suíço Albert Hofmann isolou e nomeou a psilocibina e a psilocina em 1958. Além do cogumelo, forma esclerócios, massas compactas que crescem sob a terra, conhecidas como "trufas" (segunda foto).

Psilocybe tampanensis com chapéus claros
Psilocybe tampanensis em grupo

Psilocybe tampanensis

Potência: Moderada

Nome popular: "pedras filosofais" (esclerócios)

Onde ocorre: Raríssima na natureza: foi descrita a partir de um exemplar coletado em 1977 em um campo arenoso perto de Tampa, na Flórida (EUA).

Uma curiosidade da micologia: praticamente toda a linhagem cultivada hoje descende de um único exemplar coletado pelo micologista Steven Pollock. Assim como a P. mexicana, forma esclerócios, e por isso é bastante estudada.

Panaeolus cyanescens com chapéus brancos e pés longos
Panaeolus cyanescens em grupo denso

Panaeolus cyanescens

Potência: Alta

Nome popular: "blue meanie", copelandia

Onde ocorre: Regiões tropicais e subtropicais, inclusive o Brasil, sobre esterco de gado e de cavalo.

De outro gênero, o Panaeolus. Tem chapéu claro que racha quando seca, pé longo e fino, e lamelas que escurecem em manchas à medida que os esporos pretos amadurecem. Mancha de azul com facilidade e costuma aparecer nos mesmos pastos que o P. cubensis.

Panaeolus cinctulus no gramado, com pés finos
Panaeolus cinctulus com chapéus castanhos

Panaeolus cinctulus

Potência: Baixa

Nome popular: "banded mottlegill", antes chamado P. subbalteatus

Onde ocorre: Mundo todo, em gramados adubados, composto e esterco.

Muito comum e discreto. Ao secar, o chapéu castanho forma uma faixa escura na borda, detalhe que dá o nome popular em inglês. O teor de psilocibina é baixo e irregular, e ele cresce nos mesmos gramados que espécies tóxicas parecidas.

Gymnopilus spectabilis em tufo alaranjado
Gymnopilus spectabilis com chapéus dourados

Gymnopilus spectabilis

Potência: Variável, muitas vezes ausente

Nome popular: "laughing gym"; no Japão, o-waraitake ("grande cogumelo do riso")

Onde ocorre: Tocos e raízes de árvores na Europa, na Ásia e nas Américas.

Grande, laranja-dourado e em tufos, é bem diferente dos demais. A presença de psilocibina é inconsistente: aparece em algumas coletas e não em outras, conforme a região. Muitos micólogos tratam o grupo hoje como Gymnopilus junonius. Entre os cogumelos de cor parecida que crescem em madeira há espécies tóxicas.

Confundir cogumelos pode matar. Várias espécies psicoativas crescem ao lado de cogumelos mortais muito parecidos, como a Galerina marginata (em madeira, junto daP. cyanescens) e a Pholiotina rugosa (em gramados, junto dosPanaeolus). As duas contêm amatoxinas, as mesmas toxinas que causam falência do fígado. Nem fotos nem descrições bastam para uma identificação segura: nunca consuma cogumelos silvestres.

Como a psilocibina age no cérebro

A psilocibina é um pró-fármaco: depois de ingerida, é convertida em psilocina, a molécula ativa. A psilocina tem estrutura parecida com a da serotonina e age principalmente nos receptores 5-HT2A, muito presentes no córtex cerebral, região ligada à percepção, à cognição e às emoções. Os pontos abaixo são mecanismos propostos pela pesquisa: ajudam a entender os resultados clínicos, mas não são, sozinhos, prova de eficácia.

Infográfico: a psilocibina é convertida em psilocina no organismo, age nos receptores 5-HT2A e altera a conectividade da rede de modo padrão (DMN)
Ilustração educativa e simplificada da King Funghi. Os efeitos começam de 20 a 50 minutos após a ingestão, atingem o pico em 60 a 90 minutos e duram de 4 a 6 horas. A relação entre as mudanças na DMN e a redução da ruminação é uma hipótese em estudo.

Mudanças na comunicação entre redes cerebrais

Estudos de imagem mostram que, durante o efeito, a psilocibina altera a conectividade de redes cerebrais, entre elas a rede de modo padrão (DMN), associada ao pensamento autorreferencial e à ruminação. Pesquisadores relacionam essas mudanças à sensação de "dissolução do ego" e a uma maior flexibilidade de pensamento. É uma hipótese de mecanismo em estudo: os trabalhos medem conectividade de formas diferentes, e a DMN não explica sozinha os efeitos observados.

Neuroplasticidade e o receptor TrkB

Um estudo na Nature Neuroscience (Moliner et al., 2023, Universidade de Helsinki, com participação de pesquisadores da USP) mostrou, em experimentos com células e animais, que a psilocina e o LSD se ligam diretamente ao TrkB, o receptor do BDNF, proteína ligada à formação de novas conexões entre neurônios, com afinidade muito maior que a de antidepressivos comuns. É uma descoberta pré-clínica importante, que ajuda a explicar por que o efeito pode durar mais que a presença da substância no corpo. Ainda não foi demonstrado que esse mecanismo seja suficiente para explicar as respostas em humanos.

O que os estudos clínicos mostram

Para cada condição, indicamos em palavras o estágio da evidência, sem notas ou letras, e informamos o tipo de estudo, o tamanho da amostra e o principal resultado:

  • Evidência mais sólida: ensaios randomizados, incluindo fase 3, com resultado positivo.
  • Evidência consistente, em estudos pequenos: ensaios randomizados com resultados na mesma direção, mas com poucas pessoas.
  • Evidência promissora, ainda limitada: poucos ensaios controlados ou estudos-piloto de destaque.
  • Evidência preliminar: estudos abertos, relatos de casos ou ensaios pequenos sem conclusão.
  • Sem evidência clínica de eficácia: apenas autorrelatos ou estudos de mecanismo.
Infográfico com os principais estudos de psilocibina em depressão: NEJM 2021, JAMA Psychiatry 2021, NEJM 2022 e os dois ensaios de fase 3 da Compass Pathways
Resumo visual dos estudos em depressão. Detalhes e limitações de cada um na lista abaixo.

Depressão

Dois ensaios de fase 3 com resultado positivo e pedido de registro em andamento nos EUA.

Evidência mais sólida do campo

A depressão é a condição com maior volume e qualidade de evidência para a psilocibina, e a que está mais perto de virar tratamento aprovado. Os marcos principais:

Psilocibina contra escitalopram (Imperial College, NEJM, 2021)

Ensaio randomizado duplo-cego de fase 2 com 59 pacientes com depressão maior moderada a grave, comparando duas doses de 25 mg de psilocibina com o antidepressivo escitalopram por 6 semanas. A diferença no desfecho primário não foi estatisticamente significativa (2,0 pontos; IC 95% de -5,0 a 0,9; p=0,17). Vários desfechos secundários favoreceram a psilocibina, mas sem correção para múltiplas comparações. O estudo era pequeno e não foi desenhado para provar equivalência nem superioridade: ele mostrou que a comparação merece ensaios maiores.

Johns Hopkins, depressão maior (JAMA Psychiatry, 2021)

Ensaio randomizado com grupo de espera (24 pacientes analisados), com duas sessões de psilocibina (20 mg/70 kg e 30 mg/70 kg). Quatro semanas após o tratamento, 71% tiveram redução clinicamente significativa dos sintomas e 54% estavam em remissão. Amostra pequena e sem grupo placebo.

Compass Pathways, fase 2b em depressão resistente (NEJM, 2022)

233 participantes em 22 centros de 10 países receberam dose única de psilocibina sintética (1 mg, 10 mg ou 25 mg), com apoio psicológico. Na semana 3, a dose de 25 mg reduziu os sintomas de forma significativamente maior que a dose de controle de 1 mg (-6,6 pontos na MADRS; p<0,001), com 37% de respondedores e 29% em remissão. A resposta sustentada até a semana 12 não confirmou de forma consistente o resultado principal, e os eventos adversos foram frequentes (ver Segurança). Os autores pediram ensaios maiores e mais longos, que são justamente os de fase 3.

Fase 3: COMP005 (2025) e COMP006 (2026)

Os dois ensaios de fase 3 atingiram o desfecho primário, segundo a empresa patrocinadora (diferenças de -3,6 e -3,8 pontos na MADRS na semana 6, ambos com p<0,001). Os dados de 26 semanas do COMP006 indicam manutenção média do benefício em quem respondeu. São os resultados que sustentam o pedido de registro na FDA. Até a publicação em revista científica revisada por pares, eles devem ser lidos como comunicados da empresa.

O que isso significa na prática

A psilocibina caminha para se tornar uma opção para depressão resistente ao tratamento (falha em pelo menos dois tratamentos adequados), e não um substituto dos antidepressivos de primeira linha. Todos os ensaios usaram substância padronizada, seleção rigorosa de participantes e acompanhamento profissional antes, durante e depois da administração.

Ansiedade e depressão em doenças graves (como câncer avançado)

O histórico de pesquisa mais longo, desde os anos 1960, com resultados duradouros.

Evidência consistente, em estudos pequenos

Uma revisão sistemática (Reiche et al., 2018) reuniu 11 estudos, de 1960 a 2017, com 445 participantes com doenças ameaçadoras da vida, e encontrou reduções de ansiedade e depressão. Dois ensaios randomizados duplo-cegos de 2016 são as referências modernas:

Griffiths et al. (Johns Hopkins, 2016)

51 pacientes com câncer. A psilocibina produziu reduções grandes e sustentadas de depressão e ansiedade, mantidas em cerca de 80% dos participantes após 6 meses.

Ross et al. (NYU, 2016)

29 pacientes com câncer. Uma única sessão produziu redução rápida e sustentada de ansiedade e depressão, mantida em 60% a 80% dos pacientes aos 6,5 meses.

Os resultados são animadores pela duração do efeito com poucas sessões e pela falta de alternativas eficazes para a angústia existencial. O limite está no tamanho das amostras: faltam ensaios maiores para confirmar.

Dependência de álcool e tabagismo

Um ensaio controlado positivo em álcool e um piloto de destaque em tabaco.

Evidência promissora, ainda limitada

Álcool

Bogenschutz et al. (NYU, JAMA Psychiatry, 2022) publicaram um ensaio randomizado duplo-cego com 95 participantes com transtorno por uso de álcool: o grupo da psilocibina, com psicoterapia, teve cerca de 9,7% de dias de consumo pesado ao longo de 32 semanas, contra 23,6% no grupo placebo. Revisões recentes confirmam o sinal positivo, mas lembram que boa parte dos demais estudos é aberta ou observacional.

Tabagismo

No piloto de Johnson et al. (Johns Hopkins, 2014), 12 de 15 participantes (80%) estavam sem fumar após 6 meses, com confirmação por biomarcador, e 67% continuavam sem fumar aos 12 meses. Os números chamam atenção, mas o estudo não tinha grupo controle e a amostra é muito pequena. Um ensaio randomizado maior está em andamento.

TEPT (transtorno de estresse pós-traumático)

Para TEPT, as substâncias mais estudadas hoje são outras (MDMA e metilona).

Evidência preliminar

A substância com mais dados em TEPT é o MDMA, que chegou à fase 3; a FDA não o aprovou em 2024 e pediu estudo adicional. A metilona, outra molécula, recebeu voucher de revisão prioritária da FDA em 2026. Para a psilocibina em TEPT existem estudos abertos com resultados iniciais positivos e ensaios em andamento; até esta revisão, não identificamos ensaio randomizado publicado. As hipóteses de mecanismo tornam a pesquisa plausível, mas não substituem dados clínicos.

TOC (transtorno obsessivo-compulsivo)

Um estudo piloto pequeno e ensaios controlados ainda em andamento.

Evidência preliminar

Um estudo aberto (Moreno et al., 2006) com 9 pacientes mostrou redução dos sintomas em todos os participantes, com duração de 24 horas a vários meses. Sem grupo controle, o resultado serve para justificar ensaios maiores, que estão em andamento.

Cefaleia em salvas

Relatos animadores de pacientes; o primeiro ensaio controlado foi pequeno e inconclusivo.

Evidência preliminar

A cefaleia em salvas está entre as dores mais intensas descritas na medicina. Sewell et al. (Neurology, 2006) documentaram 53 casos de pacientes que relataram melhora após uso por conta própria de psilocibina ou LSD. O primeiro ensaio randomizado com placebo (Schindler et al., Yale, 2022) incluiu apenas 14 participantes na análise e não mostrou diferença estatisticamente significativa na frequência de crises. Novos ensaios estão em andamento. Não há aprovação para essa indicação em nenhum país.

Autismo

O tema com maior distância entre o entusiasmo público e os dados.

Sem evidência clínica de eficácia

O que existe de fato

Um levantamento (Psychopharmacology, 2024) com 233 autistas que relataram experiências por conta própria com psilocibina e LSD descreveu experiências subjetivas positivas: é autorrelato, não ensaio clínico. O estudo PSILAUT (King's College London) usa a psilocibina como ferramenta para investigar diferenças no sistema serotoninérgico entre adultos autistas e não autistas, sem testar eficácia. Em Toronto (CAMH), um ensaio investiga psilocibina para depressão em adultos autistas, e não o autismo em si.

O que não existe

Nenhum ensaio randomizado publicado testando psilocibina como tratamento do autismo, e nenhum dado sobre as características centrais do autismo (comunicação social, comportamentos repetitivos).

Por que isso importa

O autismo é muito heterogêneo, e pesquisadores como Hsiang-Yuan Lin (Toronto) e William Mandy (UCL) alertam que a resposta pode ser diferente da observada em pessoas não autistas. A pesquisa em comorbidades (depressão e ansiedade) é legítima e está em curso; tratar o autismo com psilocibina não tem base científica hoje.

Segurança e riscos

A toxicidade física da psilocibina é considerada baixa, e o potencial de dependência é pequeno, porque ela não age diretamente no sistema de recompensa da dopamina. Isso não significa ausência de risco.

Nos ensaios clínicos, a psilocibina é dada em ambiente controlado, a participantes selecionados, com preparo psicológico, supervisão e acompanhamento. Mesmo assim, há eventos adversos: no ensaio da Compass publicado no NEJM em 2022, 77% dos participantes (179 de 233) tiveram algum, principalmente dor de cabeça, náusea e tontura, e houve registros de ideação suicida, comportamento suicida ou autolesão em todos os grupos de dose. Também são descritos aumento passageiro da pressão arterial e da frequência cardíaca e sofrimento psicológico intenso durante o efeito.

O risco depende da substância, do estado de saúde, dos medicamentos em uso, do contexto e da qualidade da supervisão. Por isso, os resultados das pesquisas não podem ser transferidos para uso sem supervisão nem para cogumelos de potência desconhecida.

Medicamentos e condições que exigem cautela

Não suspenda antidepressivos, estabilizadores de humor ou qualquer outro medicamento por causa de psilocibina. A interrupção abrupta pode causar danos e só deve ser discutida com o médico responsável.

Quem costuma ficar de fora das pesquisas

Os ensaios clínicos usam triagem e critérios de exclusão rigorosos. Costumam ser excluídas pessoas com histórico pessoal ou familiar de psicose, esquizofrenia ou transtorno bipolar tipo 1, algumas doenças cardiovasculares, epilepsia ou uso de medicamentos com possíveis interações. Gravidez e amamentação não têm dados de segurança. Esta lista não é completa e não é orientação de uso.

Combinações que exigem avaliação especializada

  • Lítio: há sinal de risco relevante de convulsões, vindo sobretudo de relatos de usuários e de farmacovigilância (Nayak et al., 2021). A segurança dessa combinação não foi estabelecida.
  • Antidepressivos serotoninérgicos (ISRS e ISRN): podem atenuar os efeitos da psilocibina em alguns contextos. O tema é pesquisado ativamente e não justifica interromper o tratamento.
  • IMAOs, estimulantes, outros psicodélicos e álcool: combinações pouco estudadas e potencialmente perigosas.
  • Antipsicóticos: podem reduzir ou alterar os efeitos, por agirem em receptores de serotonina e de outros sistemas.

Situação legal e linha do tempo regulatória

O cenário regulatório nunca esteve tão favorável. Nos EUA, a psilocibina tem resultados positivos de fase 3, apoio explícito do governo e revisão acelerada na FDA; no Brasil, já há pesquisa autorizada pela Anvisa, inclusive com um medicamento experimental nacional. Hoje, porém, nada disso muda a lei brasileira: psilocibina e psilocina continuam substâncias controladas, e o único acesso legal é a participação em pesquisa clínica aprovada por comitê de ética. Cada item abaixo informa o que ele é, para separar fato, comunicado de empresa e previsão.

Infográfico da linha do tempo da psilocibina rumo à aprovação na FDA, de junho de 2025 a 2027, separando o que já aconteceu das previsões
Resumo visual. A linha do tempo completa, com a fonte de cada item, vem logo abaixo.
1998Norma vigente no Brasil

Psilocibina e psilocina passam a constar da Lista F2 (substâncias psicotrópicas de uso proscrito) da Portaria SVS/MS nº 344/1998. A lista é atualizada periodicamente pela Anvisa.

Fonte: Portaria SVS/MS nº 344/1998 (BVS/Ministério da Saúde)

Junho de 2025Resultado anunciado pela empresa

A Compass Pathways anuncia que o primeiro ensaio de fase 3 (COMP005) da psilocibina COMP360 para depressão resistente ao tratamento atingiu o desfecho primário: 258 participantes, diferença de -3,6 pontos na escala MADRS contra placebo na semana 6 (p<0,001).

Fonte: Compass Pathways, comunicado de 23/06/2025

Novembro de 2025Informado pelo projeto de pesquisa

O Instituto Alma Viva divulga que a Anvisa autorizou a importação de 18 kg de Psilocybe cubensis para pesquisa e produção do medicamento experimental nacional BTP23+ (depressão maior resistente), além de uma autorização para pesquisa com cogumelos secos em pacientes oncológicos com ansiedade existencial, em parceria com a Uninorte.

Fonte: Instituto Alma Viva

Fevereiro de 2026Resultado anunciado pela empresa

A Compass Pathways anuncia que o segundo ensaio de fase 3 (COMP006) também atingiu o desfecho primário: duas doses de 25 mg, com 3 semanas de intervalo, contra 1 mg, com diferença de -3,8 pontos na MADRS na semana 6 (p<0,001).

Fonte: Compass Pathways, comunicado à SEC (17/02/2026)

18 de abril de 2026Ato oficial nos EUA

O presidente dos EUA assina a ordem executiva "Accelerating Medical Treatments for Serious Mental Illness", que determina à FDA acelerar a pesquisa, a revisão e o acesso a tratamentos psicodélicos para doenças mentais graves. Uma ordem executiva americana não altera a situação legal no Brasil.

Fonte: Casa Branca (whitehouse.gov)

24 de abril de 2026Ato oficial nos EUA

A FDA concede vouchers do programa de revisão prioritária (Commissioner's National Priority Voucher) a três projetos: Compass Pathways (psilocibina para depressão resistente), Usona Institute (psilocibina para depressão maior) e Transcend Therapeutics (metilona para TEPT). O voucher encurta a revisão de cerca de 10 a 12 meses para 1 a 2 meses. É revisão acelerada, não aprovação.

Fonte: CNN, 24/04/2026

7 de julho de 2026Resultado anunciado pela empresa

A Compass Pathways publica os dados de 26 semanas do COMP006: 39% dos pacientes do grupo de 25 mg tiveram redução clinicamente relevante dos sintomas até a semana 6 e, em média, mantiveram o benefício até a semana 26. Era o último dado necessário para completar o pedido de registro na FDA.

Fonte: Compass Pathways, comunicado de 07/07/2026

4º trimestre de 2026Previsão

A Compass Pathways prevê concluir o pedido de registro (rolling NDA) do COMP360 na FDA. O envio por módulos já começou.

Fonte: Compass Pathways, resultados do 1º trimestre de 2026

1º semestre de 2027Previsão

Com o voucher, a decisão da FDA pode sair em 1 a 2 meses após o pedido completo. A empresa projeta o lançamento nos EUA no primeiro semestre de 2027, se a FDA aprovar e a DEA reclassificar a substância. Se isso se confirmar, a psilocibina será o primeiro psicodélico clássico aprovado como medicamento pela FDA.

Fonte: Compass Pathways, resultados do 1º trimestre de 2026

Depois de uma aprovação nos EUAPossibilidade, não automática

A Anvisa pode avaliar o mesmo medicamento de forma otimizada pelo mecanismo de confiança regulatória ("reliance", RDC 741/2022 e IN 289/2024), que permite aproveitar a análise de autoridades estrangeiras equivalentes. É um caminho possível, não uma consequência automática: depende de pedido da empresa e da análise da própria Anvisa.

Resultado positivo de fase 3 não é aprovação, e voucher de revisão prioritária também não. Previsões refletem planos anunciados pelas empresas e podem mudar. Linha do tempo conferida em 28 de setembro de 2026; atualizamos esta página a cada novo marco.

Referências e metodologia

  1. Carhart-Harris R et al. Trial of psilocybin versus escitalopram for depression. N Engl J Med 2021;384:1402-1411. DOI 10.1056/NEJMoa2032994
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  3. Goodwin GM et al. Single-dose psilocybin for a treatment-resistant episode of major depression. N Engl J Med 2022;387:1637-1648. DOI 10.1056/NEJMoa2206443
  4. Reiche S et al. Serotonergic hallucinogens in the treatment of anxiety and depression in patients suffering from a life-threatening disease: a systematic review. Prog Neuropsychopharmacol Biol Psychiatry 2018;81:1-10. DOI 10.1016/j.pnpbp.2017.09.012
  5. Griffiths RR et al. Psilocybin produces substantial and sustained decreases in depression and anxiety in patients with life-threatening cancer. J Psychopharmacol 2016;30:1181-1197. DOI 10.1177/0269881116675513
  6. Ross S et al. Rapid and sustained symptom reduction following psilocybin treatment for anxiety and depression in patients with life-threatening cancer. J Psychopharmacol 2016;30:1165-1180. DOI 10.1177/0269881116675512
  7. Bogenschutz MP et al. Percentage of heavy drinking days following psilocybin-assisted psychotherapy vs placebo in the treatment of adult patients with alcohol use disorder. JAMA Psychiatry 2022;79(10):953-962. DOI 10.1001/jamapsychiatry.2022.2096
  8. Johnson MW et al. Pilot study of the 5-HT2AR agonist psilocybin in the treatment of tobacco addiction. J Psychopharmacol 2014;28(11):983-992. DOI 10.1177/0269881114548296
  9. Johnson MW et al. Long-term follow-up of psilocybin-facilitated smoking cessation. Am J Drug Alcohol Abuse 2017;43(1):55-60. DOI 10.3109/00952990.2016.1170135
  10. Moreno FA et al. Safety, tolerability, and efficacy of psilocybin in 9 patients with obsessive-compulsive disorder. J Clin Psychiatry 2006;67(11):1735-1740. DOI 10.4088/JCP.v67n1110
  11. Sewell RA et al. Response of cluster headache to psilocybin and LSD. Neurology 2006;66(12):1920-1922. DOI 10.1212/01.wnl.0000219761.05466.43
  12. Schindler EAD et al. Exploratory investigation of a patient-informed low-dose psilocybin pulse regimen in the suppression of cluster headache: results from a randomized, double-blind, placebo-controlled trial. Headache 2022. DOI 10.1111/head.14420
  13. Whelan TP et al. The "PSILAUT" protocol: an experimental medicine study of autistic differences in the function of brain serotonin targets of psilocybin. BMC Psychiatry 2024;24:319. DOI 10.1186/s12888-024-05768-2
  14. Moliner R et al. Psychedelics promote plasticity by directly binding to BDNF receptor TrkB. Nat Neurosci 2023;26:1032-1041. DOI 10.1038/s41593-023-01316-5
  15. Hofmann A et al. Psilocybin, ein psychotroper Wirkstoff aus dem mexikanischen Rauschpilz Psilocybe mexicana Heim. Experientia 1958;14:107-109. DOI 10.1007/BF02159243
  16. Nayak SM et al. Classic psychedelic coadministration with lithium, but not lamotrigine, is associated with seizures. Pharmacopsychiatry 2021;54(5):240-245. DOI 10.1055/a-1524-2794

Como esta página é feita

Distinguimos ensaios clínicos randomizados, estudos abertos ou observacionais, relatos de caso, estudos de mecanismo e comunicados de empresas, e dizemos qual é qual. As referências são conferidas na data de revisão indicada no topo. Esta página não passou por revisão médica ou jurídica formal e não substitui a orientação de um profissional de saúde.

Histórico: publicada em 11/09/2026. Revisada em 28/09/2026, após auditoria editorial externa: correção da leitura de dois ensaios (escitalopram e Compass 2022) e da referência do estudo sobre TrkB, inclusão dos resultados de fase 3, nova seção de segurança, linha do tempo com status e fonte de cada item e links para todas as referências. Em 29/09/2026: nova seção com as principais espécies psicoativas e infográficos sobre o mecanismo de ação, os estudos em depressão e o caminho até a aprovação.

Enquanto a ciência dos psicodélicos avança, o universo dos cogumelos legais já oferece muito: o Juba de Leão, por exemplo, é estudado pelos seus compostos ligados à saúde do sistema nervoso, e não tem nenhuma substância psicoativa. Conheça a maior variedade de cogumelos comestíveis e funcionais do Brasil emNossos Cogumelos.

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